O caso do sr. Valdemar

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Recentemente comentei o conto “A máscara da morte rubra”, de Edgar Allan Poe. Trago outro conto do autor que tem por tema a morte. Trata-se de “O caso do Sr. Valdemar”, publicado pela primeira vez em 1845. Este é o título que consta da edição que possuo (Nova Aguilar, 2001). O título original é The Facts of M. Valdemar’s Case. A falta da tradução da palavra facts para o português prejudica um pouco.

Títulos são contextualizadores prospectivos, isto é, eles sinalizam ao leitor o que ele deve encontrar adiante. Claro que essa regra nem sempre é obedecida. Há casos, no entanto, em que o título é a chave para se entender o conto.

No caso do conto de Poe, a palavra Facts (fatos, verdade) é essencial na contextualização, na medida em que revela ao leitor que o que ele vai ler é uma verdade, algo que pode ser provado. Isso, como se verá, coincide com o ar de cientificismo dado ao conto, o que é um dos recursos utilizados pelo autor para dar efeitos de sentido de verdade. É como se o autor dissesse ao leitor: o que você vai ler agora não é uma história ficcional, mas o relato científico de um fato verdadeiro. Convenhamos: num conto de terror, isso tem um efeito especial. Poe se vale do conhecimento científico da época (séc. 19), particularmente do mesmerismo e das experiências com o magnetismo, para apresentar um caso de um paciente, o Sr. Valdemar, que está à beira da morte.

O mesmerismo é uma técnica criada pelo médico Franz Anton Mesmer que consistia em sugestionar o paciente por meio da troca de fluidos com outro ser vivo (magnetização).

O Sr. Valdemar à beira da morte será magnetizado (mesmerizado) pelo narrador. Chegamos ao tema do conto: a morte. Do ponto de vista aspectual, a morte tem caráter terminativo, isso significa que ela nomeia o fim de um processo (vida).

A vida tem aspecto durativo, ela desenvolve-se no tempo, e continuaria a desenvolver-se se o processo não fosse interrompido pela morte. Mas aí está a genialidade de Poe, pois o que se narra no conto é a morte não como término, mas como prolongamento, o que significa dizer que o conto trabalha numa zona nebulosa que é a não-vida e a não-morte. É nessa zona que o narrador mantém conversa com o Sr. Valdemar, cuja língua consegue expressar a frase: “Eu morro”.

Gostaria que refletissem no ato de enunciação dessa frase. Há um sujeito, o Sr. Valdemar que fala (eu). Ao enunciar, instala um tempo (o presente: falo). Há, pois, uma subversão do processo. O eu pode falar do morrer no futuro (eu morrerei, eu vou morrer), no passado (eu morri). Ao falar eu morro no presente, nomeia o processo em sua duração como em eu canto, eu ando, eu leio. Nesse espaço em que não é mais vida, mas ainda não é morte é que se desenvolve a comunicação entre o narrador e o Sr. Valdemar.

Acrescento que o tema da comunicação com os mortos é normalmente tratado em narrativas ligadas ao discurso místico, religioso ou esotérico, aqui é tratado numa visada científica, dando o efeito de realidade ao conto.

Um conto magnífico para quem gosta de entender a vida e a morte e, principalmente, o que ocorre no exato momento em já não vivemos, mas ainda não morremos.

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