O colóquio dos cachorros

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Neste post, falo sobre uma novela de Cervantes, “O colóquio dos cachorros”, que faz parte do livro Novelas exemplares.

Quando se pensa em Miguel de Cervantes, é inevitável que nos venha à memória sua obra máxima, Dom Quixote, de sorte que Novelas exemplares acaba ficando ofuscada. Essa obra foi publicada pela primeira vez em 1613 e traz várias histórias curtas (novelas).

A Editora Cosac & Naify publicou no Brasil uma edição primorosa das Novelas exemplares, mas, com o encerramento das atividades da Cosac & Naify, essa edição passou a ser disputada a preço de ouro nos sebos.

A Grua Livros tem em seu catálogo uma coleção chamada ‘A arte da novela’. São livros em formato pequeno, com preço bastante acessível, que trazem histórias curtas de autores diversos. Nessa coleção, podem ser encontrados, entre outros, os seguintes títulos: Bartleby, o escrevente, de Herman Melville; A briga dos dois Ivans, de Gogol; Os mortos, de James Joyce e O colóquio dos cachorros, de Cervantes.

Em “O colóquio dos cachorros”, dois cães, Cipião e Berganza, dotados temporariamente da faculdade da fala, passam a conversar. Combinam que Berganza contará primeiro sua vida e, se no dia seguinte, ainda tiverem o dom da fala, Cipião contará a sua.

A novela traz apenas a história de Berganza. O papel de Cipião é de interlocutor, fazendo observações sobre o narrado. Como não temos a história da vida de Cipião, podemos supor que o dom da fala durou apenas uma noite.

A medida que vamos lendo e tomando conhecimento das aventuras e desventuras de Berganza, é impossível que não nos lembremos de outra novela espanhola, ‘Lazarilho de Tormes’, pois como Lazarilho, Berganza vai passando de um dono a outro. O humor e a crítica mordaz são outras características comuns às duas novelas.

A novela de Cervantes é exemplar na medida em que traz lições profundas sobre o comportamento humano e sobre as relações entre pessoas. Com o ponto de vista deslocado para o animal, passamos a enxergar comportamentos humanos que já não percebemos.

No início, Berganza chama a atenção sobre a humildade, tão típica dos cães, mas tão ausente em humanos, dizendo que “a humildade é a base e fundamento de todas as virtudes e, sem ela, não há virtude que exista”. Está aí posto um silogismo, cuja premissa maior é ‘devemos ser humildes’.

Prosseguindo em sua exaltação da humildade como fundamento das demais virtudes, Berganza afirma que a humilde pode transformar inimigos em amigos, moderar a cólera dos irados e diminuir a arrogância dos soberbos.

Berganza não é apenas um cachorro filósofo que apenas tece considerações sobre o comportamento humano, é também um cachorro de ação, pois faz o que fala, agindo para corrigir injustiças, atacando os insolentes e desonestos. Ele não só ensina pelas palavras, mas também pelos exemplos.

A novela trata de comportamentos humanos, mas certas passagens podem causar justa indignação ao leitor do século XXI. Há de fato alguns trechos que hoje são politicamente incorretos e até mesmo passagens que manifestam preconceito, como as referências que se fazem aos ciganos. A leitura de “O colóquio dos cachorros”, uma obra do início do século XVII, deve ser feita levando em conta o contexto de sua produção.

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