O conceito de frase

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No artigo, discorro sobre o conceito de frase e estabeleço a distinção entre frase, oração e período. Lembrando sempre que as formas e estruturas gramaticais existem para produzir sentidos, de sorte que todo estudo de gramática deve ter sempre por objetivo a produção de sentidos.
Frase

A palavra frase chegou até nós pelo latim, phrasis, cujo sentido é "dicção", "elocução". Mas sua origem remonta ao grego, phrásis, que designa a ação de se exprimir pela palavra. A palavra grega prende-se ao verbo phrázo, cujo sentido é "fazer compreender", "explicar por meio de sinais ou palavras". Essa breve retrospectiva histórica ajuda a contextualizar o que pretendo conceituar: falar em frase é situar-se no campo da elocução, isto, é, do ato de se dizer algo, de exprimir-se por palavras, enfim, de produzir sentidos.

Damos o nome de frase às elocuções (os ditos) linguísticos portadores de sentido e que são, portanto, capazes de estabelecer comunicação entre sujeitos no contexto em que são proferidas. Isso significa que a situação em que ocorre a elocução é essencial para que um dizer seja alçado à categoria de frase. Exemplo: numa placa colocada em um hospital em que aparece escrita a palavra SILÊNCIO, tem-se uma frase, pois alguém (um falante) dirige-se a alguém (o leitor) para dizer algo de modo completo. Como se pode observar pelo exemplo dado, para constituir frase, não houve necessidade de que se usasse um verbo. Claro que poderia ser usado. Em vez de a placa conter simplesmente a palavra SILÊNCIO, poderia conter um dizer maior como PEDIM0S QUE TODAS AS PESSOAS PRESENTES NESTE LOCAL FAÇAM SILÊNCIO. Evidentemente, do ponto de vista comunicacional, essa frase é muito menos eficaz do que a frase de uma palavra só, SILÊNCIO, isso porque o contexto permite recuperar informações não explicitadas.

Imagine o seguinte diálogo na bilheteria de um cinema:

"Gostaria de adquirir duas entradas para a próxima sessão."
"O senhor desejaria entrada inteira ou meia entrada?"
"Desejo meia entrada, porque somos dois estudantes."
"Perfeito, aqui estão seus ingressos. O valor total é 40 reais. O senhor vai pagar em dinheiro ou com cartão?"
"Pagarei com cartão."
"O senhor utilizará cartão de débito ou de crédito?"
"Utilizarei o cartão de crédito."

(...)

O diálogo acima, feito por meio de frases, é improvável que ocorra numa situação real de comunicação. E, caso ocorresse, a fila atrás do prolixo indivíduo ficaria enorme. O provável é que o diálogo fosse algo assim:

"Duas."
"Meia ou inteira?"
"Meia."
"Pronto. 40 reais. Dinheiro ou cartão?"
"Cartão."
"Débito ou crédito?"
"Crédito."

Cada vez que um dos interlocutores na situação acima toma a palavra temos frases, porque se trata de unidades de sentido completas que permitiram aos interlocutores estabelecer comunicação. Note que em nenhum momento eles fizeram uso de verbos.

O número de frases de uma língua é praticamente infinito. No entanto, para criar e compreender frases, elas devem estar formadas de acordo com as regras da língua. Em situações concretas de uso as frases vão constituir os enunciados. Os exemplos acima são de frases e não de enunciados, pois não ocorreram de fato. u inventei essas frases para explicar algo. 

Frases dizem respeito à língua enquanto sistema abstrato de que nos valemos para nos comunicar. Enunciados dizem respeito ao discurso, ou seja, a usos concretos e efetivos da língua. Os enunciados, ao contrário das frases, são únicos e irrepetíveis. Um frase como Bom dia! dita por alguém a outrem num determinado momento e lugar é um enunciado. O enunciado é o produto da enunciação, o ato de dizer, é apresenta as categorias de pessoa (eu /tu), tempo (agora) e lugar (aqui). Quando Pedro, de manhã, ao entrar no elevador, diz a João "Bom dia", este enunciado remete a uma instância que tem as categorias de pessoa (eu, tu; Pedro e João, respectivamente), tempo (presente, agora) e lugar (no elevador). 

As frases podem ser usadas com as mais diversas finalidades e consequentemente produzirem sentidos diversos (declarar algo, perguntar, informar, ordenar, exprimir surpresa etc.), lembrando-se de que postas em situações concretas de comunicação constituirão enunciados, ou seja, remeterão às categorias de pessoa, tempo e lugar, que são pressupostas pelo enunciado. Dependendo da intenção de quem as profere, as frases costumam ser classificadas em:

a) declarativas: utilizadas para afirmar ou negar algo de forma objetiva. Aquele que fala dá como certo o que diz. Nos enunciados, aquele que diz é chamado de enunciador e aquele para quem se diz é chamado de enunciatário.

A novela começou às 21 horas.
Gabriela não gosta de assistir a novelas.

As frases declarativas podem ser submetidas à prova da verdade, ou seja, podemos verificar se o que ela declara é verdadeiro ou falso. Uma frase como A capital do Brasil é Buenos Aires é declarativa, mas seu conteúdo é falso. As frases declarativas podem ser transformadas em interrogativas: A novela começou às 21h horas? , Gabriela não gosta de assistir a novelas?


b) interrogativas: aquele que fala desconhece algo e pergunta ao interlocutor sobre isso. Em situações concretas de uso; em enunciados, portanto, ao se valer desse tipo de frase, quem fala, o enunciador, espera por parte do ouvinte, o enuncitário, uma resposta. É usada quando se pretende obter uma informação.

Que horas são?
Quando você chegou?

Esses dois exemplos ilustram as chamadas frases interrogativas diretas, aquelas que terminam por ponto de interrogação. Há as chamadas interrogativas indiretas. Nesse caso, haverá duas orações, sendo uma introduzida por conectivo ( quando, como, onde, por que etc.). As interrogativas indiretas terminam por ponto.

Perguntei a Paulo que horas são.
Diga-me quando você chegou.

c) exclamativas: exprimem sentimentos diversos: espanto, admiração, surpresa, alegria, susto etc. O que determina que a frase se classifique como exclamativa é a entoação com que é proferida. Terminam por ponto de exclamação.

Que alegria encontrar você por aqui!
Que decepção!

d) imperativas: exprimem ordem, conselho, pedido, solicitação, súplica etc. Esse tipo de frase tem função pragmática, pois visa obter um comportamento de ouvinte. Nesse tipo de frase, o sujeito costuma não estar expresso e a forma verbal não exprime tempo.

Devolva o livro que lhe emprestei.
Não deixe de fazer os exercícios recomendados.

e) optativas: exprimem um desejo. Em geral, o verbo desse tipo de frase se encontra no subjuntivo ou no imperativo. As optativas muitas vezes confundem-se com as imperativas. A situação em que são proferidas, quando são enunciadas, portanto, permite estabelecer a distinção.

Deus te proteja.
Bons ventos o levem.

Se levarmos em conta que, no processo de comunicação, um destinador envia uma mensagem a um destinatário, as frases interrogativas e imperativas estão centradas no destinatário; as exclamativas, no destinador e as declarativas no próprio conteúdo da mensagem.

Oração

Oração é a frase ou membro de uma frase que se organiza em torno de um verbo. Quando é um membro de frase, não possui sentido completo.

[Choveu muito em Santa Catarina].
[Quando chove muito], [ perigo de enchentes].

No primeiro exemplo, temos uma única oração que possui sentido completo. Portanto essa oração constitui uma frase. No segundo exemplo, temos duas orações e o sentido resulta da associação delas. Veja que a oração "quando chove muito" não tem sentido completo. A oração "há perigo de enchentes" teria sentido completo, mas não nesse contexto.

Período

Período é a frase constituída por uma ou mais orações. Dependendo do número de orações, o período pode ser:

a) simples: quando formado por uma única oração.

O preço dos combustíveis continua alto.

b) composto: quando formado por mais de uma oração.

[Um homem subiu na mesa de um bar] [e fez discurso para vereador].

[É necessário] [que ela volte] [e assuma o cargo] [que abandonou].

Em síntese

O que caracteriza a oração é a presença de um verbo. A frase, por apresentar sentido completo, é capaz de estabelecer comunicação entre sujeitos. Portanto:
  • nem toda frase é uma oração (há frases sem verbo);
  • nem toda oração é uma frase (há orações que não têm sentido completo);
  • há frases formadas por uma ou mais de uma oração (períodos simples ou períodos compostos);
  • todo período é uma frase porque tem sentido completo e é capaz de estabelecer comunicação;
  • as frases sem verbo não comportam análise sintática.
Quanto a esse último item, esclareço que o objeto de estudo da análise sintática é a oração ou o período. No primeiro caso, decompõe-se a oração a fim de verificar a função de cada parte (chamada de termo) dentro do todo. Os termos da oração classificam-se de acordo com a função que exercem: sujeito, objeto, adjunto etc. A análise sintática de períodos consiste na decomposição dos períodos em suas unidades constituintes, as orações, que são classificadas de acordo com uma nomenclatura específica.

Para a produção de frases (e enunciados), o falante executa duas operações básicas: seleção e combinação. Dentre uma categoria, ele procede a escolha de que elemento irá usar e o combina com outro escolhido em outra categoria. Quando um falante diz Meninos choram, procedeu, dentro de uma paradigma (classe) a escolha de meninos em vez de moleques, crianças, guris... No outro paradigma (classe) escolheu-se choram, em vez de soluçam, berram, reclamam... e fez a combinação entre esses dois elementos, obedecendo a determinadas regras que vão constituir a gramática da língua. 








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