O perfume

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No post de hoje, falo sobre O perfume, de Mia Couto, um dos contos livro Histórias abensonhadas, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

A história é narrada por um observador e se inicia pelo convite que Justino faz a Glória, sua mulher, para irem ao baile. O convite se faz acompanhar de um presente que Justino dá à mulher: um vestido. Glória estranha o convite e o presente já que o amor entre eles esfriara com o tempo. Coloca o vestido, arruma o cabelo e pega um frasco de perfume, o único presente que havia ganhado de Justino até então. Mas como o líquido já se evaporara, ela joga o vidro vazio pela janela e ouve o som provocado por sua quebra.

Histórias abensonhadas, Mia Couto

O marido, normalmente ciumento, parece não demonstrar ciúme algum pela arrumação da mulher, pelo contrário, insiste em que ela se embeleze usando batom. Justino teve ainda a preocupação de levar os filhos para o vizinho para que pudessem ir ao baile e vai com Glória ao salão em seu velho automóvel, mostrando cavalheirismo. Glória estranha todo esse comportamento do marido. Chegam ao baile, sentam-se, mas não dançam, até que um homem toma a liberdade de pedir a Glória que dance com ele. A mulher, a princípio, recusa, dizendo que ainda não havia dançado com o marido, mas esse insiste em que Glória dance com o estranho.

Enquanto dança com o estranho, Glória olha para o marido e vê em seus olhos que ele a está abandonando, como o perfume que se esvaiu. Interrompe a dança e corre para o marido e pergunta aonde ele vai. Justino diz que vai sair para conversar com uns amigos e já volta. Glória pede para ir com ele, mas Justino não autoriza. Glória abandona o baile e volta para casa na esperança de encontrar Justino, mas nem rastros dele. Adormece nos degraus da escada e acorda com a luz da manhã e sente o cheiro de perfume. Crê que seja Justino que voltava trazendo para ela um perfume como presente. Sai à rua descalça para encontrar Justino e pisa nos estilhaços do vidro de perfume que atirara pela janela, cortando os pés. “Ainda hoje restam, no soalho da sala, indeléveis pegadas de quando Glória estreou o sangue de sua felicidade”.

O conto apresenta dois programas narrativos: um de disjunção; outro de conjunção. Começo pelo primeiro. Glória está numa relação de conjunção com Justino. São casados há algum tempo, têm filhos, mas a relação não anda boa. Justino é ciumento e, na narrativa, está pressuposto que Glória não tinha liberdade. A passagem do estado de conjunção para o de disjunção se dá pela atuação do marido, que manipula a mulher por sedução, levando-a ao baile, onde será descartada e entregue a outro. Glória se vê abandonada pelo marido, mas recusa-se a entrar em conjunção com outro homem, ficando só.

O segundo programa está num nível mais abstrato. Glória vive com o marido, mas não tem liberdade. Em suma: Glória está em relação de conjunção com o marido e em relação de disjunção com o objeto-valor liberdade. Ocorre que há uma implicação lógica entre os dois programas, pois um exclui o outro, colocando Glória numa posição de escolha forçada. O programa narrativo de Glória aponta pela manutenção do casamento, mas a frase final do conto mostra que ela alcançou a liberdade e isso lhe trouxe a felicidade.

E o perfume? Afinal, ele dá título ao conto. Há uma semiótica dos odores, ou seja, odores são signos, são portadores de sentido. Cheiros são classificados com base em sua fonte (flor, vinho, comida, ser vivo etc.) ou em função do processo em que é apreendido (fresco, mofado, podre etc.). Atendo-se a esse último aspecto, os cheiros serão classificados segundo sua pureza. Pureza resulta de um processo de triagem e impureza de mistura. Pureza e homogeneidade são valores eufóricos (positivos); impureza e heterogeneidade são valores disfóricos (negativos). A oposição semântica /pureza vs. impureza/ subsume outras: /santidade vs. pecado/; /liberdade vs. opressão/. No conto, o perfume é valor eufórico, mas quando Glória vai usá-lo, percebe que não havia mais nada no frasco. A liberdade se fora, desaparecera, evaporara com o tempo.

Glória é um frasco de perfume sem perfume, é só embalagem sem conteúdo, portanto sem serventia. Pode ser jogada pela janela e estilhaçar-se ou ser deixada abandonada numa mesa de salão de baile para ser apanhada pelo primeiro que chegar. E esse o estatuto de Glória antes de ser abandonada. O perfume é percebido pelo olfato, mas é retido na memória e, como disse, o cheiro tem sentido. Ao acordar em casa, e sentir o cheiro do perfume, num primeiro momento, Glória associa-o conscientemente, ao marido, mas uma segunda associação lhe surge quando se corta nos cacos do vidro de perfume e tem seus pés sangrando, o cheiro que sente lhe evoca o sofrimento decorrente da falta de liberdade e Glória agora é feliz, porque é afinal livre.

#ocontonasaladeaula

 

 

 

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