Pessoa e personagem de ficção

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Neste post, trago um trecho do livro O conto na sala de aula (Editora InterSaberes, 2017), que escrevi com Jessyca Pacheco. Trata-se do trecho introdutório ao capítulo em que discutimos a personagem.

Quando lemos um conto, acompanhamos as ações e as transformações de personagens. Embora saibamos que se trata de uma obra de ficção, em decorrência da verossimilhança, as personagens se nos apresentam como reais – ou seja, elas nos parecem pessoas de carne e osso, quando, na verdade, são apenas pessoas de papel, criadas no e pelo discurso, graças à imaginação criadora de alguém. Às vezes, essa identificação entre pessoa e personagem é tão forte, que há quem não consiga separar uma da outra.

Consideremos um episódio bastante ilustrativo: nos Estados Unidos, em 1882, em um teatro na cidade de Baltimore, era encenada a peça Otelo, de Shakespeare; no momento em que Otelo ia matar Desdêmona, um soldado encarregado da guarda do teatro atirou contra o ator que interpretava Otelo para salvar “Desdêmona”. Esse acontecimento mostra que o soldado não conseguiu separar ficção de realidade, confundindo a personagem Otelo com uma pessoa real. Não devemos confundir pessoa, ser real, que tem existência empírica, com personagem, ser ficccional, que tem apenas existência discursiva.

A personagem Otelo na cena em que mata a personagem Desdêmona
A personagem Otelo na cena em que mata a personagem Desdêmona

No conto O jogo da carona, de Milan Kundera, o autor explora a distinção entre pessoa e personagem. O conto narra a história de um jovem casal de namorados que viaja em um carro conversível quando, em determinado momento, para em um posto de combustíveis para abastecer. O casal, no conto, não é identificado por nomes próprios, mas por “o rapaz” e “a moça”. A parada no posto marca o início do conto e de todas as transformações. Depois de ir ao banheiro, a moça retorna ao carro, mas não mais como ela mesma, uma moça bastante tímida, mas como encarnação de uma personagem, que é bastante diferente do que a moça é na realidade. O rapaz entra no jogo e também passa a desempenhar o papel de uma personagem. Portanto, agora, no carro viajam duas personagens que interpretam outras duas personagens. Ocorre que as personagens que a moça e o rapaz passam a interpretar vão ganhando vida própria e a relação entre o casal se torna diferente, porque é vivida não mais por eles, mas pelas personagens que interpretam. O jogo de interpretação vai crescendo e chega a um ponto em que a moça não consegue mais jogá-lo e quer voltar a ser o que era antes do jogo; mas, para o rapaz, o jogo não pode parar e ele continua a jogá-lo, porque não mais consegue separar a moça da personagem que ela interpreta. Recomendamos a leitura desse conto na íntegra para refletir sobre como, às vezes, não conseguimos separar a pessoa da personagem que ela interpreta.

Embora as personagens não tenham existência real, nosso conhecimento delas, em geral, é muito maior do que o conhecimento que temos de pessoas reais, pois um narrador onisciente pode nos revelar os pensamentos mais íntimos e secretos das personagens, o que normalmente não é possível em relação a pessoas reais. As personagens, para os leitores, são bem mais transparentes do que as pessoas que eles conhecem na vida real. Nós as aceitamos e nos identificamos com elas não porque são reais, mas porque nos convencem. É por essa razão que aceitamos, sem problema algum, personagens que fazem parte de contos de ficção científica ou de narrativas fantásticas, como Benjamin Button, que nasce com 70 anos e vai rejuvenescendo, ou o Major Kovalióv, do conto O nariz, de Gogol, que perde o nariz, fica com o rosto parecendo uma panqueca e, de repente, vê seu nariz andando em uma carruagem. Sabemos que essas personagens não são reais, mas são construídas de tal forma que assim nos parecem.

#ocontonasaladeaula

 

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