Referências de citações

Tempo de leitura: 2 minutos

“Quo usque tandem…?” (Até quando…?)

O discurso é marcado pela heterogeneidade. No caso de ela estar mostrada no texto, como é o caso das citações alheias, deve-se indicar a fonte com as referências completas.

Há, porém, editoras que querem ser mais realistas que o rei e levam isso a ferro e fogo e acabam criando verdadeiros mostrengos. Você cita de memória em seu texto a frase “Penso, logo existo” e diz apenas que é de Descartes. A editora lhe manda um recadinho: “Favor completar a fonte”.

Isso significa que ela exige que você coloque o nome completo do autor, nome da obra, edição, volume, tradutor, local de publicação, nome da editora, data de publicação e número da página.

O número de palavras que constará na referência completa passará em muito as três palavrinhas da citação (dois verbos e uma conjunção relacionando-os).

Imagine outra situação. Você cita, de memória, em português, a frase “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?” e coloca que é de Cícero, apenas isso, deixando de lado o Marco Túlio (ou Marcus Tulius, se quiser usar o antropônimo latino). O recadinho chega: “Favor completar a fonte”.

Ferrou. Sei que está nas ‘Catilinárias’(o Catilina já aparece na frase citada), mas não tenho o livro (alguém tem?) para completar a referência. Não tenho dúvida. Digito no São Google e aparecem milhares de resultados e até mesmo um site que contém as ‘Catilinárias’ na íntegra e traduzidas para o português por um emérito latinista. Copio o link e dou como referência. O resultado no trabalho ficará esquisito. O mostrengo insiste em se mostrar para assustar o interessado leitor.

Pedir referências completas de frases como aquelas citadas e de outras como “A religião é o ópio do povo” e “O homem é a medida de todas as coisas”, “Até tu, Brutus?” é um preciosismo sem tamanho.

Vou pôr as barbas de molho (referências?) e evitar usar em meus textos a frase “Heureca!”. Dá que me obriguem a apresentar as referências completas e eu não sei onde vou achar a obra de Arquimedes para completar a fonte. Será que na Biblioteca de Babel eu acho?

E, por falar nas ‘Catilinárias’,
“Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?”(Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?).

PS: a essas pessoas tomadas desse furor catalínico, sugiro a leitura de Frases sem texto, de Dominique Maingueneau, mas não vou colocar as referências completas. Procurem no Google.


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