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S.O.S. Português
Colaborei por algum tempo com a antiga revista Nova Escola da Editora Abril numa seção chamada S.O.S. Português. Leitores escreviam para essa seção para solucionar dúvidas sobre língua portuguesa. A maioria das perguntas envolvia a norma-padrão.
Mexendo em meu computador, encontrei algumas das dúvidas de leitores da Nova Escola respondidas por mim. Abaixo reproduzo uma dúvida de leitor de Petrolina (PE) e a resposta dada a ele e, por extensão, aos leitores da revista.
Como se explica a palavra obcecado ser grafada com “c” após o b, enquanto obsessão grafa-se com “s” após o “b”?
O sistema ortográfico em português é de base fonética, ou seja, a escrita, por meio das letras e alguns outros sinais, procura reproduzir os sons da fala que usamos ao dizer as palavras.
Há, porém, palavras cuja grafia leva em conta a etimologia, ou seja, a origem da palavra. Escrevemos hoje, com agá, e nascer com sc, embora pronunciemos oje e nacer; pois; em sua origem latina; essas palavras eram assim grafadas hodie e nascere.
Obsessão e obcecado são exemplos de palavras cuja grafia segue o critério etimológico. A representação escrita delas leva em conta sua origem latina. Se em ambas a grafia é feita com base na etimologia, por que em obsessão usamos s depois do b e em obcecado, usamos c?
Ocorre que obcecado e obsessão, embora venham do latim, não têm a mesma origem, ou seja, não provêm da mesma raiz, ao contrário do que ocorre em obcecar e obcecado.
Obcecado provém do latim obcaecatus, particípio de obcaecare, que significa ‘cegar’, ‘tornar cego’. A palavra obsessão também vem do latim, mas de obsessione, cujo sentido original era ‘assédio’, ‘cerco’, ‘bloqueio’. Em síntese, obcecado e obsessão têm origens (raízes) diversas, daí apresentarem grafias diferentes.
Outras palavras da Língua Portuguesa costumam despertar esse mesmo tipo de dúvida, como acender (atear fogo) e ascender (subir). A primeira provém do latim accendere e a segunda, do latim ascendere. As duas palavras têm exatamente a mesma pronúncia, mas são escritas de modo diferente porque a raiz delas não é a mesma.
Claro que os usuários da língua não precisam conhecer a etimologia da palavra para grafá-las corretamente. Por outro lado, mesmo quando se usa o critério fonético para grafar as palavras, podemos ter dúvidas na grafia porque nem sempre há equivalência entre a letra e o som que ela representa.
Dúvidas de ortografia são resolvidas por meio de consulta a um bom dicionário ou ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), disponível na internet. Basta clicar aqui.
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