Senilidade

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No ano passado, falando de adaptações de obras literárias para o cinema, comentei a que Mauto Bolognini fez do romance Senilità, de Italo Svevo. Gostaria de voltar ao assunto, não só porque Svevo é um dos autores de que mais gosto por aquilo que escreveu, mas também porque ele me remete a meus ancestrais, já que Svevo é da cidade hoje italiana de Triste, onde nasceu em 1891. Nessa região, nasceu também Amábile, minha avó materna, que teve importante papel em minha formação intelectual.

Quando eu criança, me era muito confuso entender a nacionalidade de minha avó, que, além do português se expressava em alemão e italiano. Dizia-se austríaca. Só mais tarde é que fui entender que ela nascera numa região em que pertencia ao antigo Império Austro-húngaro e que o italiano que ela falava era o dialeto triestino. Quando adulto, fiz questão de ir a Triste e me encantei com a cidade, com os triestinos e com o Adriático. Vovó era uma pessoa muito culta e lia muito. Quem lhe trazia os livros era eu, que ia retirá-los na biblioteca circulante municipal. Como ela lia muito rápido, eu aproveitava o tempo de empréstimo que sobrava para ler os livros também.

Embora A consciência de Zeno seja o livro mais festejado de Svevo, é Senilità, publicado em 1898, a obra de Svevo de que mais gosto por, parodiando Machado, me permitir atar as duas pontas da vida. Lembra-me da minha infância e da minha triestina avó e de meu atual flerte com a senilidade.

Senilità foi publicado no Brasil pela Nova Fronteira, com tradução de Ivo Barroso. Minha edição é de 1982. O romance está fora de catálogo, mas pode ser encontrado em sebos. Senilità foi adaptado para o cinema em 1962 por Mauro Bolognini. No Brasil, recebeu o nome de Desejo que atormenta. O título do filme, disponível em DVD, é péssimo em português. Deveriam ter optado pela tradução literal do italiano, já que o filme mostra que a paixão desencadeia o comportamento senil de Emílio.

Não sei se a escolha do título em português foi uma forma de evitar a palavra senilidade, que, entre nós, ganhou tem uma conotação bastante pejorativa. Derivada de senil, carrega o sentido de decrépito, de decadente.

Senil provém do latim ‘senilis’, que, por sua vez se prende a ‘senex’. Dessa raiz latina, temos em português palavras com sênior e senhor, que contêm a ideia de velhice. Acho que ainda hoje, é regra chamarmos os mais velhos de senhor. De ‘senex’, também vieram as palavras senado e senador. O que elas têm a ver com a ideia de velhice? Simples: na Roma antiga o ‘senatus’ era a assembleia de anciões. Bem, hoje não é mais de anciões, mas de… (deixa isso pra lá).

A senilidade, no filme e no livro não é física, mas a metáfora da inépcia, da abulia, do homem sem qualidades que Musil retrataria tão bem, independentemente da idade cronológica. Jovens senis, por mais paradoxal que seja, andam aos montes por aí.

No filme, Claudia Cardinale, lindíssima, faz o papel de Angiolina, e Anthony Franciosa, em ótima atuação, o de Emilio. A fotografia em branco e preto é excelente, com locações em Trieste, com direito a vista do Adriático. Emilio, burguês com aspirações a intelectual, se apaixona perdidamente pela ambígua e pobre Angiolina. Por causa dessa louca paixão, Emilio vai conhecer o inferno e entra num processo de senilidade, embora seja ainda jovem.

O que o livro de Svevo e a adaptação de Bolognini mostram é que Emilio, como outros personagens de Svevo, é um sujeito egoísta. O que ele sente por Angiolina é uma mistura de paixões: desejo, forte atração sexual e ciúme doentio, mas o que o move é o puro egoísmo, e onde há egoísmo não há amor. Sob o pretexto de “educar” Angiolina, Emílio quer possuí-la só pra si e sem ter com ela compromisso. Obcecado, é incapaz de compreendê-la como pessoa. Quanto a Angiolina? Ora! ela é mulher, o mistério que move o homem. Vale a pena ler o livro de Svevo e depois ver o filme de Bolognini.

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