Sobre colocação dos pronomes

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No artigo, trato do caso do emprego de pronomes oblíquos átonos (me, te-, se, nos, vos) abrindo a frase, o que causa urticária em muitos gramáticos que, espumando, condenam um uso mais que sacramentado.

Em outras oportunidades, já me manifestei sobre isso, afirmando que, tirante algumas construções que se cristalizaram, como os anúncios do tipo Vende(m)-se casas, Aluga(m)-se apartamentos, Precisa-se de pedreiros (não vou entrar aqui na discussão se casas é sujeito, se o verbo deve ir para o plural ou não), a colocação do pronome em início de frase (e textos) é mansa e pacífica entre nós, mesmo nas variedades prestigiadas socialmente.

O que trago aqui é uma contribuição de um não linguista, que viu com muita clareza a questão do pronome átono em início de frase (texto). O que ele afirma confirma que começar frase por pronome oblíquo é algo que há muito está sacramentado no português brasileiro. Me refiro (sic!) ao sociólogo Gillberto Freyre, que, em Casa-grande & senzala, cuja 1a. edição é de 1933, afirma que (abro aspas)

Sucedeu, porém que a língua portuguesa nem se entregou de todo à corrupção das senzalas, no sentido de maior espontaneidade de expressão, nem se conservou acalafetada nas salas de aula das casas-grandes sob o olhar duro dos padres-mestres. A nossa língua nacional resulta da interpenetração das duas tendências. Devemo-la tanto às mães Bentas e às tias Rosas como aos padres Gamas e aos padres Pereiras. O português do Brasil, ligando as casas-grandes às senzalas, os escravos aos senhores, as mucamas aos sinhô-moços, enriqueceu-se de uma variedade de antagonismos que falta ao português da Europa. Um exemplo, e dos mais expressivos, que nos ocorre, é o caso dos pronomes. Temos no Brasil dois modos de colocar pronomes, enquanto o português só admite um – o “modo duro e imperativo: diga-me, faça-me, espere-me. Sem desprezarmos o modo português, criamos um novo, inteiramente nosso, caracteristicamente brasileiro: me diga, me faça, me espere. Modo bom, doce, de pedido. (fecho aspas).

A referência completa da citação de Gilberto Freyre, para quem quiser conferir, é FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 50a ed. São Paulo: Global, 2005, p. 417-418.

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