Tempo de espalhar pedras, romance de Estevão Azevedo

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Li, por indicação do amigo e estudioso de Clarice Lispector, Thiago Cavalcante Jeronimo, Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo (CosacNaify, 2014, 288p.), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2015. O título dialoga com Eclesiastes.

Estevão Azevedo

Sim, há um tempo para tudo e o tempo nos dá existência. O romance de Azevedo, narrado em terceira pessoa, situa a ação num tempo passado e num espaço não definido, uma vila de garimpeiros no interior do Brasil. Na contramão das tendências do moderno romance brasileiro, não tem por espaço o ambiente urbano, nem personagens cosmopolitas, mas um mundo rural e arcaico: um Brasil de garimpeiros, coronéis e fanáticos religiosos.

A trama se desenvolve em torno de duplas de personagens que se opõem, mas que se atraem (tem um tempo de juntar pedras e outro de espalhar pedras). Rodrigo e Ximena formam um desses pares. O desejo sexual entre eles é tão forte que não conseguem viver sem transarem, embora se odeiem. Estão presos pelo sexo. O que move as personagens é o desejo, a cobiça. Desejo de sexo, desejo de encontrar a divindade, desejo de fortuna, que chega a levar os moradores destruírem suas casas, cavoucando sala e quarto para encontrarem diamantes. Lembra um pouco o ataque desesperado aos ossos dos mortos sepultados no Sossego, de A nova Califórnia. A personagem Silvério é outra marcada pela contradição: seu apego à religiosidade o leva à passividade e à preguiça, esperando que Deus ponha em seu caminho o diamante que lhe dará fortuna. Ressalto ainda o estilo de Estevão Azevedo: uma prosa poética, marcada por inversões, quase que barroca. Desejo, vingança, cobiça, religiosidade, sexo são temas que permeiam a narrativa e que são encarnados por pessoas simples que vivem à margem do Brasil urbano. Um livro que merece ser lido. Fica a dica.

 

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