Três anos, de Anton Tchekhov

Tempo de leitura: 4 minutos

Três anos, de Tchekhov, é classificado classificado como novela. No Brasil, há uma ótima tradução dessa obra, feita por Denise Sales, publicada pela Editora 34, num livro de 160 páginas.

Novela é um gênero narrativo de média extensão. É um pouco maior que o conto, mas menor que o romance. Claro que a extensão da narrativa tem algumas implicações conteúdo da obra , como número de personagens e intrigas paralelas. Um conto, por ser breve, tende a não apresentar um número grande de personagens, ficando restrito aos principais. Também não costuma, como ocorre com o romance, apresentar intrigas paralelas.

Ocorre que os gêneros não são formas fixas; pelo contrário, costumam apresentar certa plasticidade. Assim podemos ter um romance de pequena extensão, ou um conto mais longo. E que se dirá da novela, que é um gênero que se intermediário entre um e outro? Como exemplos de novelas, cito: A metamorfose, de Franz Kafka; Um copo de cólera, de Raduan Nassar; A volta do parafuso, de Henry James; Memórias do subsolo, de Dostoiévski.

Desde as primeiras linhas Três anos pega o leitor de um tal jeito que é quase impossível parar a leitura. Ao final, como nos bons contos, a narrativa leva o leitor a nocaute.

Em Mitos, emblemas e sinais, de Carlo Ginzburg , há uma epígrafe que diz “Deus está no particular”. O historiador italiano usa essa epígrafe, se a memória não me falha, num texto em que fala do paradigma indiciário, no qual mostra a importância do particular, do detalhe, para a recomposição dos fatos.

Faço essa observação, pois creio que os sentidos de Três anos ficam mais claros, se fizermos uma leitura paradigmática da novela, o que implica, como na metodologia proposta por Ginzburg, atentar para o pormenor.

Uma simples sombrinha pertencente à personagem Iúlia é um símbolo de como está o relacionamento entre ela e Aleksei Láptiev. Para quem não leu Três anos (não sabem o que estão perdendo!), apresento o resumo que segue.

Tchekvov tinha acrescentado ao título Três anos, o subtlitulo “cenas da vida familiar”, que acabou sendo suprimido pelo editor. De modo muito simples, a novela fala da vida de uma família, vista a partir de Aleksei Láptiev, o protagonista. São três irmãos, Aleksei, Fiódor e Nina, filhos do rico comerciante Fiódor Stepánich Láptiev. Aleksei apaixona-se por Iúlia e a pede em casamento. Iúlia, a princípio, recusa (a sombrinha de Iúlia tem papel relevante no pedido de Aleksei). No entanto, arrepende-se e procura Aleksei para comunicar a ele que aceita o pedido (a sombrinha está presente de novo).

Casam-se, mas ambos são infelizes. Ela, por saber que não ama Aleksei, ele, por saber que ela não o ama. Os três núcleos da família padecem de infelicidade: Aleksei por estar casado com uma mulher que não o ama; Fiódor é acometido de doença mental e Nina morre em decorrência de um câncer, deixando órfãos dois filhos pequenos. Nina e Aleksei têm uma filha, que morre bastante cedo.

O patriarca Fiódor, já está bastante velho e começa a ficar cego. É o desmantelamento da rica família e de seus negócios que agora têm de ser geridos por Aleksei, que, além de não gostar e de não ser apto para gerir os negócios da família, se opõe ao método usado pelo pai que consistia em exercer o poder na empresa e na família pela força, pela intimidação e pela violência. Tudo se desintegra e Iúlia, mais madura e bastante mudada, confessa amar Aleksei, que já não a ama mais.

O tempo da duração dos acontecimentos é o que consta do título, três anos. A narração é feita por um observador (narração em 3ª. pessoa) que nos revela o mundo interior de Aleksei, de forma que a percepção que o leitor tem do tempo dos acontecimentos é que a história tenha se passado num intervalo de tempo muito maior, em decorrência das retenções que o narrador produz na sequência dos fatos.

Duas leituras se podem fazer dessa história. A primeira, de um personagem disjunto da felicidade, que poderia ser obtida por meio do casamento. Isso porque para Aleksei, num primeiro momento, felicidade é a realização da paixão amorosa, que não se concretiza com o casamento.

A segunda leitura, que não invalida a primeira é a da dissolução não mais de uma família, mas de um modelo de sociedade e de família baseado na servidão. A felicidade, portanto, está na liberdade. Só seremos felizes se formos livres. Encerro com a frase final de Três anos, que exprime o pensamento de Aleksei Láptiev sobre o que o esperava no futuro: “Quem viver, verá”.

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