A língua “errada e rude”de Sancho Pança

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No cap. XIX da segunda parte de Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura adverte Sancho Pança, em razão de o escudeiro normalmente pronunciar as palavras de forma diferente das de um cavaleiro. Sancho diz, por exemplo, ‘vocabos’ em vez de ‘vocábulos’. O fidalgo se irrita com Sancho e chega a chamá-lo de “prevaricador da boa linguagem”. O fiel e humilde escudeiro não deixa por menos e responde ao da Triste Figura:

– Não se irrite vosmecê comigo, pois sabe que não me criei na Corte nem estudei em Salamanca, para poder saber se acrescento ou tiro uma letra a meus ‘vocabos’. Sim, pois, valha-lhe Deus! Não há razão para obrigar o saiaguês a falar como o toledano, e toledanos pode haver que não acertem no alvo, em questão de polido falar.

Faço um breve comentário. Saiaguês é o habitante de Sayago, hoje província de Zamorra, Espanha. Na época de Cervantes (século XVII), a imagem que se tinha dos saiagueses era a de um povo que usava uma linguagem rude, se comparada à dos habitantes de Toledo, que, ao contrário dos saiagueses, se exprimiam numa variedade prestigiada socialmente, o que seria, nos termos de hoje, a norma culta. Para os toledanos, os saiagueses falavam errado. Acrescento que os dicionários da língua portuguesa dão ao adjetivo saiaguês o sentido de ‘ignorante’, ‘grosseiro’, ‘rude’.

Sancho dá um tapa com luva de pelica no amo, ao dizer que, mesmo entre os toledanos, há muita gente cuja linguagem é também rude. O escudeiro, mesmo em sua simplicidade, percebia que a língua não é homogênea, pois apresenta variedades.

Passados 400 anos, lendo essa passagem do Quixote, vemos como ela é atual. A fala de Sancho cai como um anel no dedo de muita gente que insiste em agir de modo preconceituoso em relação àqueles cuja fala não corresponde à variedade socialmente prestigiada. Como se observa, o preconceito linguístico é histórico e não é privilégio nosso.

Ainda dentro do tema, pego uma carona com Dante e recuo trezentos anos em relação à época de Cervantes, encerrando com uma passagem da última parte da Divina Comédia (séc. XIV), ‘Paraíso’, canto XXVI. Pela boca de Adão ouço estas sábias palavras:

Opera naturale è ch’om favella;

ma cosí o cosí, natura lascia

poi fare a voi, secondo che v’abella.

Na tradução de Italo Eugenio Mauro

A fala humana é da Natura um bem,

mas o vário seu modo ela confia

ao vosso gosto ou a como vos convém.

Muito antes de a Linguística surgir como ciência, a literatura já tratava da variação linguística.


3 Comentários


  1. Muito, muito bom. Como gosto das variações linguísticas. E, vê-las em Dante e Cervantes é um enriquecimento. Parabéns!

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  2. Amo ler o blog de Ernani Terra, pois como já foi dito durante muito tempo ensinei utilizando a gramática de Ernani Terra, daí, adorar o blog. Napoleao Mendes de Almeida , Evanildo Bechara Maria Helena, Irande Antunes, acho-os maravilhosos. Neles, encontro o cerne da lingua. GRATIDÃO, devo a todos

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