Avalovara

Tempo de leitura: 3 minutos

Na década de 1970, eu cursava Letras clássicas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FLCH-USP.) Embora, durante ao que hoje equivale ao Ensino Médio, não gostasse muito das aulas de língua, fui fazer letras porque era apaixonado por literatura e lia tudo, desde os clássicos, até as obras novas que eram lançadas.

Creio que se publicava menos literatura brasileira que hoje, pois não me lembro de muitas obras literárias de autores nacionais publicadas naquela época.

Em 1973, saiu o romance Avalovara, do pernambucano Osman Lins. Comprei imediatamente, não tenho certeza se o comprei do “Seu” Jaime, um senhor que vendia livros para os estudantes e permitia que esses pagassem depois, normalmente em parcelas.

Comecei a ler o romance e tropecei logo de cara: não conseguia avançar porque não entendia nada. Lembro-me de que havia um palíndromo em latim, SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, cujo significado é algo como “O lavrador mantém cuidadosamente a charrua nos sulcos”.

Era um desafio muito grande para alguém que mal entrara nos 20 anos de idade.

Fiquei traumatizado a ponto de passar longe de qualquer livro que tivesse o nome do autor pernambucano na capa. Avalovara, no entanto, ficou na minha cabeça latejando: “Decifra-me ou devoro-te”.

Tempus tempora temperat. Traduzindo o latinório, o tempo tudo trará.

Quando comecei a escrever o livro O conto na sala de aula, Jessyca Pacheco, que escreveu o livro junto comigo, sugeriu que incluíssemos no livro o conto “A partida”, de Osman Lins. Esse conto está no livro e também comentado aqui no blogue. Não conhecia o conto e, por sugestão da Jessyca fui lê-lo.

Li numa sentada e, terminada a leitura, fiquei anestesiado pela porrada que levei. Que conto!!! Garrei a pensar: Stultorum infinitus est numerus. Traduzindo o latinório, é infinito o número dos tolos. Verdade. E eu me vi mais um tolo engrossando o infinito número de tolos. Como pude: tantos anos sem ler Osman Lins?

Mas é possível recuperar o tempo perdido, sem umedecer a madeleine na infusão de tília. Comecei a ler a obra de Osman Lins pelos contos para poder desembarcar no Avalovara. Se aquele jovem e estulto estudante de Letras, tivesse começado pelos contos, já teria lido o Avalovara há muito tempo.

Outra coisa me chamou a atenção sobre Osman Lins: sua carreira como professor universitário. Defendeu na USP a tese de doutoramento sobre o espaço romanesco em Lima Barreto, depois publicada em livro, obra essencial para quem quer entender a categoria espaço na narrativa. Infelizmente essa obra, que foi publicada pela Editora Ática, está há muito esgotada.

Osmar Lins era estudioso e não ia dar aulas sem que as tivesse preparado meticulosamente. Infelizmente, não permaneceu muito tempo no magistério, abandonando-o, seis anos depois, decepcionado com o pouco comprometimento dos alunos de Letras com a literatura. Azar nosso. Ficamos mais pobres.

Literatura é coisa séria: é para gente comprometida e estudiosa.


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