Leitura literária e conhecimento linguístico: caminhos que se entrecruzam

Leitura literária e conhecimento linguístico: caminhos que se entrecruzam

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Uma assinante do blogue nos enviou mensagem perguntando como integrar os estudos de literatura com os de língua. Há várias formas para se fazer isso e uma não é melhor que a outra. Tudo dependerá do contexto em que se pretende fazer essa integração, o que envoolve diversos fatores, como número de aulas disponíveis e material didático adotado. O que apresentamos a seguir é apenas uma sugestão, que deverá ser adaptada às circunstâncias em que se dará a integração.

Uma das formas para integrar os estudos literários como os linguísticos é trabalhar com os estudantes as formas pelas quais o enunciador se instala no texto e quais recursos de linguagem permitem ao estudante dar conta do contexto de produção. Maingueneau enfatiza que 

as teorias da enunciação linguística atribuem papel essencial à reflexividade da atividade discursiva e de modo particular às coordenadas implicadas por todo ato de enunciação: coordenadas pessoais, espaciais e temporais nas quais se baseia a referência de tempo dêitico. (2006, p. 249)

O estudo das categorias da enunciação (egohicnunc) permite que os professores trabalhem não só os efeitos de sentido do discurso (maior ou menor subjetividade, por exemplo), como também noções linguísticas de pessoa e tempo verbal, uso de advérbios e demonstrativos, recursos discursivos como referenciação, anáfora e dêixis. 

Um texto sem as marcas do enunciador no enunciado tem efeito de sentido de objetividade, daí ser o preferido de autores naturalistas; nos românticos, deparamo-nos, com frequência, com as marcas do enunciador no enunciado, já que a subjetividade é característica desses autores, portanto a escolha de um procedimento ou outro decorre das intenções do enunciador. O que estamos propondo é, ao invés de falar que românticos são subjetivos e naturalistas, objetivos, mostrar como os efeitos de sentido de objetividade e subjetividade são construídos nos textos.         

A enunciação

Saussure nos mostra que a linguagem humana tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro. Ao lado social e abstrato ele chama língua (langue). Ao lado individual e concreto, denomina fala (parole). Se Saussure distinguiu com bastante propriedade língua e fala, Benveniste o ultrapassa e nos mostra como se passa da língua para a fala. Benveniste denomina enunciação ao processo pelo qual os falantes se apropriam da língua e a convertem em atos de fala, os enunciados. 

Enunciação e enunciado são palavras correspondentes ao verbo enunciar. Nelas, temos o radical latino nunci-, o mesmo que aparece em anunciardenunciarpronunciar. Enunciar é o ato de dizer; portanto enunciado é aquilo que se diz, o dito. A enunciação não se confunde com o texto (o enunciado), ela é o ato pelo qual os falantes produzem enunciados. 

Há aí uma implicação lógica: a enunciação é pressuposta pelo enunciado, ou seja, se há um dito (o enunciado), pressupõe-se logicamente que houve um ato de dizer (a enunciação). Maingueneau, na mesma obra, afirma que a enunciação ocupa um espaço entre texto e contexto e que, entre o espaço de produção e o espaço textual, há a cena da enunciação.

Benveniste nos mostra que a enunciação frequentemente deixa marcas no enunciado e que ela tem um conteúdo linguístico. Para ele, pela enunciação instala-se o sujeito no enunciado. Instalado um eu (ego), instalam-se também um lugar (hic) e um tempo (nunc). A enunciação é, pois, a instalação de um ego-hic-nunc, ou seja, de uma pessoa, de um lugar e de um tempo. A essas instâncias, Benveniste denominou de aparelho formal da enunciação. 

Benveniste escreveu em latim (ego-hic-nunc), e não em francês, língua na qual foram escritos os Problemas de Linguística Geral, para deixar claro que tais categorias não são de uma língua em particular, mas da linguagem humana. Vale lembrar que, na obra já citada, Maingueneau afirma que “as formas de subjetividade supostas pela enunciação é um dos grandes eixos da análise do discurso“. Esse autor sustenta ainda que a enunciação faz criar um centro dêitico, que é “fonte de pontos de referência de pessoa, tempo e espaço; mas supõe também a atribuição da responsabilidade dos enunciados a diversas instâncias usadas na enunciação“. 

A categoria de pessoa

Fixemo-nos inicialmente no conceito de pessoa do discurso. Nossos alunos aprendem no Ensino Fundamental que as pessoas do discurso são três: eu-tu-ele (no plural: nós-vós-eles). Benveniste vai nos mostrar que, na verdade, há apenas duas pessoas: o eu e o tu, o enunciador e o co-enunciador. O ele não é uma pessoa do discurso, pois não participa da interlocução; não está, portanto, no espaço da enunciação. Não é por acaso que, em árabe, a terceira pessoa é chamada ‘aquele que está ausente’. O ele apenas nomeia o referente, por isso Benveniste denomina a terceira pessoa de não-pessoa. Sob o ponto de vista da forma, é a única que possui uma forma para o masculino e outra para o feminino (ele / ela) e a única que faz o plural normalmente pelo acréscimo da desinência -s (eles / elas). Ainda: a terceira pessoa é usada quando o predicado não se refere a sujeito algum. Isso demonstra que a terceira pessoa deve ser entendida como uma categoria diferente da primeira e segunda pessoas.

Pela enunciação, o sujeito (eu) se apropria da língua e instaura o discurso. Ao fazê-lo, cria um parceiro a quem se dirige (tu), mesmo que esse não se explicite. Eu e tu são palavras que assumem sentido no discurso. Eu não nomeia um indivíduo, é uma palavra da ordem do discurso, é um signo que não tem referente fixo. Eu é quem diz eu. Tu nomeia aquele a quem o eu se dirige. Eu e tu são reversíveis. 

Perceber a categoria de pessoa é dar conta de que todo discurso é interativo, mesmo que o tu não venha manifestado. Nesse sentido, vale refletir sobre as palavras de Maingueneau: “Toda enunciação, mesmo produzida sem a presença de um destinatário, é de fato tomada numa interatividade constitutiva; ela é um intercâmbio, explícito ou implícito, com outros locutores, virtuais ou reais“. 

O discurso literário, assim como outros discursos, caracteriza-se pela interação, por isso não há sentido algum em ver a obra literária como uma entidade autônoma, fora de um contexto de interlocução. Maingueneau é claro ao afirmar que

Tratando do processo de comunicação da obra literária como um ato de enunciação sujeito, embora de maneira específica, às normas da interação verbal, afastamo-nos da concepção literária vigente desde o romantismo, que julga que a obra constitui um mundo autárquico cuja colaboração ocorre fora de toda consideração de sua recepção. (MAINGUENEAU, 2006, p.75)

Assim como eu e tu, outras categorias gramaticais têm seu sentido dependente da enunciação, como certos pronomes, tempos verbais e alguns advérbios. São os chamados dêiticos, expressões linguísticas cuja interpretação depende da pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. 

Em outro post, retomaremos o assunto, discutindo como as outras duas categorias da enunciação, tempo e espaço, se manifestam linguisticamente nos textos.

Referências

BENVENISTE, Émile. O aparelho formal da enunciação. In: BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral II. Trad. de Eduardo Guimarães et al. Campinas (SP): Pontes, 1989. [p. 81-90].

MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. Trad. de Adail Sobral. São Paulo: Contexto, 2006.


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