Pressupostos e subentendidos

Tempo de leitura: 4 minutos

No artigo discorro sobre implícitos, mais especificamente sobre pressupostos e os subentendidos, e estabeleço a distinção entre uns e outros. Esse é um dos assuntos que discuto em meu novo livro, a ser publicado brevemente. O livro se chamará Práticas de leitura e escrita e será publicado pela Editora Saraiva.

Li certa vez em um site de notícias a seguinte manchete Mulheres já podem dirigir na Arábia Saudita. Mesmo que o leitor do site não soubesse nada sobre aquele país árabe, poderia concluir que antes, na Arábia Saudita, as mulheres estavam proibidas de dirigir. Essa informação não está escrita no texto, mas está dita. Em outros termos, no enunciado Mulheres já podem dirigir na Arábia Saudita, está implícita a informação Anteriormente, as mulheres não podiam dirigir na Arábia Saudita. Uma frase como Está um calor insu- portável aqui dentro pode conter implícito um pedido para que se abram as janelas, ou se ligue o ar condicionado.

Nos exemplos mencionados, os implícitos são de natureza diversa. Em Mulheres já podem dirigir na Arábia Saudita um elemento linguístico permite chegar à informação implícita, que é chamada de pressuposto. A expressão do enunciado que serviu de pista para chegar ao conteúdo implícito é já. Na pressuposição, há um posto (aquilo que está explícito no texto) e um pressuposto, aquilo que se pode inferir.

No enunciado Está um calor insuportável aqui dentro, a informação implícita, abra as janelas ou ligue o ar, não é inferida por nenhuma marca linguística presente no enunciado, mas decorre de um raciocínio feito pelo ouvinte sobre o que é dito. Nesse caso, a informação implícita é chamada de subentendido. É o que fazemos quando dizemos uma coisa, mas efetivamente queremos dizer outra, como em O som do rádio não está muito alto? Ao fazer essa pergunta, o falante não quer obter como resposta um sim ou não. Ele sabe que o som está alto. O que ele quer é que o outro abaixe o volume do rádio. Como essa informação não decorre de nenhuma marca linguística presente no enunciado original, temos outro exemplo de subentendido.

O que difere subentendidos de pressupostos é o fato de que nestes últimos há no enunciado elementos linguísticos que permitem chegar à informação pressuposta. Esses elementos são chamados marcadores de pressuposição. A seguir, apresento alguns exemplos que, de modo algum, constituem uma lista fechada e completa.

  • »  verbos que indicam mudança ou continuidade de estado: parar de, continuar a, deixar de, passar a, começar a etc.

Valéria passou a frequentar a igreja.

Pressuposto: Valéria não frequentava a igreja.

  • »  verbos factivos, aqueles que, quando usados na oração principal, acarretam a interpretação de que o fato expresso na subordinada é verdadeiro e não uma suposição. Exemplos de verbos factivos: lamentar, lastimar, saber, sentir etc.

Lastimo que Natália tenha sido demitida.

Pressuposto: Natália foi demitida

  • »  nominalizações, ocorrem quando se substitui uma oração por um sintagma nominal, isto é, expressão cujo núcleo é um nome.

Fiquei feliz com o telefonema de Letícia.

Pressuposto: Letícia telefonou para mim.

  • »  expressões temporais que assinalam mudança ou que a ação expressa pelo verbo já ocorrera.

Hoje você não chegou atrasada à aula.

Pressuposto: Ela costuma chegar atrasada à aula.

Finalizando o artigo, chamo a atenção paro o fato de que o importante não é saber a diferença entre pressupostos e subentendidos, mas reconhecer nos textos conteúdos implícitos de qualquer natureza. Cumpre ainda destacar que o contexto em que ocorre a interação e o encadeamento que um enunciado mantém com outros de um mesmo texto são relevantes para a apreensão de conteúdos implícitos. Um enunciado como Pedro parou de fumar, que contém o pressuposto Pedro fumava anteriormente, pode significar, dependendo do contexto, que Pedro tem muita força de vontade ou Pedro está preocupado com a saúde. Um enunciado como Está um calor insuportável aqui dentro pode ser apenas uma constatação de que está calor e não um pedido para que se abram as janelas ou se ligue o ar condicionado, ou seja, ele afirma exatamente aquilo que está escrito, sem qualquer subentendido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *