Ronda

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A finalidade do blogue, como afirmo em seu subtítulo, é “um espaço para falar de língua e literatura”. O texto que comento hoje, embora não costume ser classificado como literário (trata-se de uma letra de canção popular) é literatura pura, por isso falo dele nos parágrafos que seguem.

Uma das canções mais conhecidas da nossa música popular é Ronda, de Paulo Vanzolini (1924 – 2013). Há várias gravações sempre na voz de uma mulher. Ficaria mesmo estranho a interpretação por um homem, já que o eu que fala na letra da canção é uma mulher.

Todos conhecem a letra (por via das dúvidas, reproduzo-a ao final do artigo) e também coloco um link para o Youtube onde poderão ouvir Ronda na magistral interpretação da cantora Márcia. Em resumo, a letras diz o que segue.

Uma mulher sai à noite pelas ruas procurando pelo “amado”. (“De noite eu rondo a cidade / a te procurar”). Tudo leva a crer que o amado seja da boemia e mulherengo, pois a mulher o procura nos bares, onde supõe que ele esteja se divertindo em companhia de outras mulheres (“Bebendo com outras mulheres,/Rolando um dadinho,/ Jogando bilhar”).

Apesar de procurá-lo com insistência e não encontrá-lo, ela não desiste, e retorna para casa abatida e desencantada. Sua alegria é sonhar com amado. Mas ela é paciente e, mesmo que digam para desistir, porque a busca é inútil, ela não desiste (“Desiste, essa busca é inútil / Eu não desistia”).

É uma Penélope às avessas. Enquanto a mulher de Ulisses ficava em casa tecendo, à espera da volta do marido, nossa heroína moderna sai de casa todas as noites à procura do amado.

Pausa.

Até aí vai se construindo a imagem da mulher dependente do homem, que não pode viver sem ele, da mulher que é um nada e, para ser alguém, tem de encontrar aquele que a abandonou. A expectativa é que ela, encontrando-o, implore por sua volta.

Outra pausa.

Não. Ela não é nada disso. Não quer voltar para ele, não é a mulher pacata que chora o abandono.

É a mulher que ronda a cidade sem se cansar para encontrar o amado numa noite num bar e acabar com ele, matando-o e todos vão saber que essa Medeia moderna vingou aquele que a abandonou, pois quando isso acontecer os jornais estamparão:

CENA DE SANGUE NUM BAR NA AVENIDA SÃO JOÃO.

Cai o pano!

Essa letra é toda magnífica, mas o que eu gosto mais é a trapaça que Vanzolini faz com a gente. Vamos ouvindo a letra que parece apontar para um final e ele subverte essa expectativa, com um final surpreendente.

Perfeita!

Ronda

De noite eu rondo a cidade

A te procurar sem encontrar.

No meio de olhares espio,

Em todos os bares

Você não está…

Volto pra casa abatida,

Desencantada da vida.

O sonho alegria me dá:

Nele você está.

Ah, se eu tivesse

Quem bem me quisesse,

Esse alguém me diria:

“Desiste, esta busca é inútil”.

Eu não desistia,

Porém, com perfeita paciência

Volto a te buscar.

Hei de encontrar

Bebendo com outras mulheres,

Rolando um dadinho,

Jogando bilhar

E neste dia, então,

Vai dar na primeira edição:

Cena de sangue num bar

Da Avenida São João.

Segue o link para ouvir Ronda na interpretação de Márcia.

3 Comentários


  1. Só para ser do contra, eu gosto mais da canção com Maria Betânia. É linda!

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