Vagueza: imprecisão semântica

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Em posts anteriores tenho comentado sobre a significação de palavras. Comecei discutindo o conceito de palavra, depois falei em antônimos, hiponímia, hiperonímia, ambiguidades (para ler sobre esses temas, clique nos links). A questão das ambiguidades remete à vagueza de certos enunciados.

Numa perspectiva referencial, o sentido é dado por uma relação entre linguagem e mundo. Ao ouvirmos sequências sonoras como peixe, alface e sapato, as associamos, no mundo extralinguístico, respectivamente um tipo de animal vertebrado aquático, a um vegetal comestível, geralmente em saladas, e a uma espécie de calçado que cobre os pés.

Há certas palavras, no entanto, cuja referência não é tão precisa como nos exemplos que apresentei. Pense em adjetivos como alto e velho, cujas propriedades não são bem explicitadas. Uma pessoa com 1,70 m que queira ser jóquei será considerada alta; mas, para ser jogador de basquete, com certeza, será considerada baixa. Que é uma pessoa velha? Alguém que tenha 80 anos? Ou seriam 70? Para efeitos legais, considera-se idosa as pessoas que têm mais de sessenta anos (pela lei, elas têm atendimento preferencial); no entanto, é comum pessoas de mais de sessenta anos em plena atividade e esbanjando saúde. Seria correto chamá-las de velhas?

Para o exercício de determinadas profissões, alguém com quarenta anos pode ser considerado velho. Um time de futebol profissional dificilmente contrataria um jogador que tivesse quarenta anos para atuar em sua equipe, mas esse mesmo atleta poderia ser contratado para exercer a função de técnico ou diretor de futebol e, provavelmente, seria considerado um técnico ou um diretor jovem.

A que temperatura algo deve estar para ser considerado frio? Quando o dia está frio? Para um finlandês, uma temperatura de 18º pode ser quente, mas quem vive em Teresina, no Piauí, certamente dirá que está frio quando o termômetro marcar 18º C.

VAGUEZA

Nas línguas naturais, o uso de certas palavras, normalmente na função de predicadores, pode acarretar a vagueza dos enunciados. Uma expressão linguística é vaga quando é imprecisa, incerta, indeterminada. Frases como Meu carro é velhoMuitas pessoas assistiram ao jogo; Letícia usava uma blusa verde; Moro perto do centro da cidade caracterizam-se pela vagueza.Vagueza

Depois de quanto tempo de fabricação, um carro deve ser considerado velho?  Um carro fabricado há algum tempo que esteja bem conservado pode ser considerado novo, ao passo que um carro fabricado há pouco tempo, mas em péssimo estado de conservação pode ser considerado velho. Quantas pessoas precisam assistir a um jogo de futebol para caracterizar que sejam muitas? Num jogo inexpressivo, mil torcedores podem ser considerados muitos; mas, para uma final de campeonato brasileiro de futebol, mil torcedores é um número extremamente pequeno. Um escritor que esteja iniciando a carreira e que consiga vender dois mil livros terá vendido muitos livros, mas se Paulo Coelho vender dois mil exemplares de seu mais recente livro, esse número será considerado baixo. De que cor é exatamente um carro verde? Se pensarmos nas diversas gradações da cor (claro, escuro, meio azulado, da tonalidade de uma  esmeralda, ou de uma garrafa etc.) verde é uma palavra bastante vaga.

O fato de as palavras que exprimem cores serem caracterizadas pela vagueza levou a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) a tirar do talão de multas o campo com a indicação da cor do veículo. Na reportagem que relata esse fato, o jornal Folha de S. Paulo destaca como ponto favorável da medida justamente a característica da vagueza das palavras que exprimem cor, o que levava alguns motoristas a não pagarem por infrações de trânsito que cometeram.

A quantos quilômetros do centro da cidade devemos morar para afirmar que “moramos perto do centro”? Numa grande metrópole, se moramos a dez quilômetros do centro da cidade, moramos perto do centro; numa pequena cidade, alguém que more a dez quilômetros do centro, mora longe. Qual o critério que usamos para dizer que algo é perto ou longe? Indo de automóvel, um lugar pode ser considerado perto de outro; mas, se o percurso for feito a pé, o lugar pode ser  considerado longe.

O uso de adjetivos como novo, velho, difícil, alto, azul, competente, de certos advérbios como perto, longe e de pronomes como muitos, poucos, vários, alguns costuma acarretar a vagueza de enunciados. É preciso notar, no entanto, que há escalas de vagueza, já que há expressões mais vagas do que outras.

O conceito de vagueza permite mostrar que certos paradoxos são aparentes, como o fato de um elefante pequeno ser maior que um coelho grande, pois os conceitos de pequeno e grande estão relacionados ao tamanho normal desses animais.

Nos casos de vagueza, o contexto é essencial para precisar o sentido da expressão vaga, na medida em que acrescenta à expressão vaga especificações que não estão contidas no enunciado vago. Ao contrário do que se pode imaginar, a vagueza é útil no processo comunicativo. Sobre esse fato, Gennaro Chierchia esclarece que a vagueza

[…] permite que nos expressemos de maneira econômica e, paradoxalmente, exata, sem precisar dizer muitas coisas que seriam difíceis de decidir. Podemos dizer, por exemplo, que uma coisa é amarela e nos entendermos reciprocamente sem precisar definir explicitamente os pontos do espectro que marcam os limites em cujo interior as coisas são amarelas. Basta chegar a um acordo sobre os casos claros. Em geral, a situação de uso torna evidente que critérios estamos adotando para resolver a vagueza de um conceito. E nos casos em que isso não acontece, resta ao interlocutor a possibilidade de levantar dúvidas sobre aquilo que estamos dizendo. (CHIERCHIA, 2003, p. 65-6)

Encerrando, gostaria de assinalar que o conceito de vagueza não deve ser confundido com a dêixis. Pronomes como eu, tu, meu, minha e advérbios como aqui, , agora, hoje, embora possam fazer referência a pessoas, coisas, lugares e tempos diferentes, não caracterizarão os enunciados em que ocorrem como vagos, uma vez que, na enunciação, essas palavras farão referência precisa, designando o falante e o ouvinte, bem como as coordenadas espácio-temporais em que ocorre a enunciação.

Por ERNANI TERRA ©

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